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Projections post-capitalistes : « Pourquoi avons-nous besoin d’une autre logique » (2008).

Brasil

Porque precisamos de outra lógica

Dominique TEMPLE | 2011 | Tradução Éric SABOURIN

Pesquisador em biologia, D. Temple descobriu em 1968 a obra de Stefane Lupasco (1951). A partir de então pesquisou a questão da reciprocidade a partir da lógica ternária de Lupasco. Trabalhou de 1974 a 1978 no Paraguai, Bolívia e Peru, em apoio a organização dos conselhos e das federações das comunidades indígenas. É autor de Teoría de la reciprocidad (2003, La Paz) e numerosos artigos e livros em Frances e Espanhol.
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Do uso dos valores éticos

Nos velhos tempos, agimos em nome dos valores. Ainda hoje muitos candidatos a cargos políticos ou religiosos fazem referência aos valores. Mas onde estão esses valores ? Eles impõem-se por eles mesmos diz a Tradição. Moisés desce da montanha, Zeus oferece um juramento a Ulisses, Atena oferece outro juramento ao tribunal dos seres humanos, etc... Os valores ? Eles caem como a maná do céu ! São mandamentos... imperativos divinos transmitidos de pai para filho...

Muitos se inquietaram da natureza absoluta do comando moral. Houve preocupação porque em nome do caráter absoluto deste mandamento, uns matavam os outros, os cristãos matavam os muçulmanos, os muçulmanos os cristãos ; os católicos os protestantes, os sunitas, os xiitas, e vice-versa... Estas consciências éticas que ditavam a sua lei exigiam até a morte (a dos outros de preferência, mas inclusive a sua própria : o martírio). Eu não estou apenas referindo-me a incompatibilidades entre imaginários, mas a incompatibilidades entre referências éticas : alguns privilegiam a coragem, outros a compaixão, alguns a amizade, outros, a justiça, alguns a responsabilidade, outros a obediência, etc.

O triunfo da razão utilitária

Houve homens que decidiram romper com esta sujeição ao absoluto da consciência moral para dar prioridade à Razão. Ainda tinha que estabelecer a Razão numas bases sólidas. Mas eles tiveram a sorte que a lógica instituída para nos entender quando falamos uns com os outros fosse válida não apenas para comunicar entre-nos, mas também para dar conta das relações entre as coisas... entre certas coisas, pelo menos.

Que coisas ? Aquelas que constituem o campo da física. Mas é muito ! Toda a ciência depende disso ! Assim, herdamos uma lógica que pode estabelecer e apoiar a Razão numa ampla base : que permite não só a compreensão de nossas propostas, mas a construção de um ambiente artificial mais confortável do que a natureza. Prodígios desta racionalidade : a máquina a vapor, a luz, a eletrônica, a informação automatizada... Ele nos dá o controle das leis da natureza (das leis... pelo menos) e a oportunidade de construir obras e estruturas de arte, maravilhas tecnológicas, e também de inventar ideologias respeitosas dessa lógica.

é assim, por exemplo, que as sociedades ocidentais ter imaginado que o mercado poderia ser regulado pela relação objetiva entre as coisas ; que essas regras poderiam determinar as relações sociais pela mediação de conceitos adequados, tais como o da propriedade privada ou do salário. A Razão tem-se imbuído dessa lógica ao ponto de se confundir, hoje, com o cálculo, e se contentar com uma concepção utilitarista da economia.

Portanto, os imperativos éticos tradicionais foram relegados para o âmbito da consciência moral individual. Assim, esses imperativos passaram a aparecer como obstáculos à objetividade do equilíbrio de poder entre os proprietários privados dos meios de produção, e até mesmo como prejudicáveis para a eficácia da organização industrial. Em suma, eles agora aparecem como vestígios de uma época arcaica da organização econômica.

A questão de saber se em nome da sua concepção e racional e privada do Bem, os homens podem justificar as suas ações substituiu a referência divina dos seus motivos ; mas o interesse privado coloca tanto uns contra os outros, com uma maldição suplementar : a eficácia dos meios técnicos usados para destruir é multiplicada pela ciência ! Primeira Guerra Mundial : 15 milhões de vítimas, Segunda Guerra Mundial : 45 milhões de vitimas, guerras de colonização, guerras de descolonização.

Durante muito tempo, a esperança era do lado daqueles que defendiam a idéia de uma igualdade coletiva como um ideal de justiça ! Pois, a partir da definição do Bem pelo indivíduo, e de uma definição do Bem para uma sociedade onde todos os homens se tornaram iguais uns aos outros por uma identidade coletiva, nenhum enfoque racional conseguiu estabelecer fundar um valor de referência para todos. Alguns ainda negam o fracasso. Outros o consideram definitivo e pretendem voltar a reivindicar a inspiração divina.

Que a Razão (pelo menos essa mesma Razão), já que não pretende mais negar ou refutar a consciência moral de cada um, libere da sujeição a uma consciência afetiva que se impunha mediante altos sacrifícios, constitui certamente um progresso. Mas o valor moral de cada um, como justificá-lo ? É inato ?

Uns dizem que sim : o indivíduo seria o único responsável por aquilo que é racional e da sua concepção do humano por nascimento. Outros dizem que não : uma concepção é humana apenas se for verdadeira para todos. Eles colocam/opõem uma condição social para a verdade do indivíduo. O que é verdade, é verdade para um, se for também é verdade para o outro. Mas que isso seja verdade para todos não é uma condição necessária para conviver juntos, responderão os individualistas.

Ao se substituir a consciência afetiva, a Razão é, assim, confrontada com uma dificuldade : como restabelecer o primado dos valores morais para todos. Se a Razão o conseguisse, então, seriam evitados os afrontamentos entre os diversos sentimentos do Bem.

Outra lógica ?

No entanto, se nos encontramos incapazes de resolver certos problemas, talvez não seja por falta de precisão na análise, mas porque o instrumento com o qual se pretende compreender não é adequado. Assim como quando a relatividade de Galileu tem enfrentado obstáculos irredutíveis teve de ser substituída pela teoria da relatividade de Einstein, é hoje, provavelmente necessário dar a Razão uma lógica mais poderosa do que a lógica da identidade. Será quer o caráter absoluto de qualquer valor ético, o mistério da consciência afetiva pode ser reconsiderado se modificamos a definição da Razão, ou mais precisamente, seu aparelho lógico ? A idéia proposta por Stéphane Lupasco (1947, 1951, 1962) é de enfraquecer o princípio dessa lógica (o princípio de identidade : A é A) e, portanto, o princípio de não-contradição que diz a mesma coisa de maneira negativa (Se A é, não-A não é). O enfraquecimento significa que esta proposta pode estar sofrendo de algum grau de incerteza, de contradição, portanto, sem deixar de significar algo perfeitamente compreensível.

Poder-se-ia pensar que tal hipótese leva imediatamente a impossibilidade de uma comunicação em que todos possam confiar com firmeza. Mas aí intervém um acontecimento imprevisto : a lógica da identidade, que parecia tão maravilhosamente confirmada no campo da física pela experiência, é desmentida pela experiência dentro do mesmo campo da física ! “A é A” é uma polaridade ideal de uma dinâmica que nunca alcança o absoluto ; e o princípio de contradição da lógica clássica não é válido como critério da verdade absoluta, qual que seja a realidade que a física propõe-se estudar, uma vez que pretende a um alto nível de precisão. A identidade ultima revela-se sempre marcada por um irredutível coeficiente de contradição.

Então é a própria natureza que nos convida a superar a lógica de identidade para construir uma lógica mais geral da qual a lógica de identidade seria apenas um componente. Uma vez que a identidade não representa mais que um pólo dinâmico de atualização da energia universal, temos de admitir a possibilidade de uma dinâmica inversa. Portanto, podemos fazer variar o coeficiente de contradição entre essas duas polaridades opostas. E deve-se admitir também que essa contradição possa se desenvolver por si mesma (o que chamamos o “contraditório” ou “third incluido” em detrimento de ambas essas polaridades antagonistas.

Não seria possível, portanto, para compreender áreas como a do valor ético, da consciência afetiva, do absoluto, e de tudo o que foi rejeitado fora da física para a metafísica ? A questão imperiosa é aqui : será que podemos fundar relações humanas em uma lógica diferente daquela das relações entre as coisas consideradas do ponto de vista da suas definições pela Física comum ?

Niels Bohr já chamou a ciências humanas no Congresso de Antropologia e Etnografia de Copenhague, em 1938, a se preocupar das relações humanas com outras abordagens do que a lógica da identidade [1].

Não reivindicamos nada além de responder ao esse convite com os novos meios lógicos à nossa disposição (a lógica de Lupasco, 1960, 1961, 1974). Podemos recorrer, de fato, a uma lógica tri-polar : o primeiro eixo é o da identidade, outro eixo antagonista é aquele da diferença, e um terceiro eixo é aquele em que essas duas polaridades se anulam mutuamente para produzir uma resultante contraditória, eixo que se revela ser aquele da consciência afetiva e... do absoluto !

Como o que é inerentemente contraditório pode-se manifestar como o absoluto ? Se toda consciência de algo é polarizada de maneira não-contraditória por este objeto que se torna um objetivo, é lógico que na relativização dessa polaridade pela polaridade inversa, esse caráter não - contraditório desapareça, e com ele todo horizonte objetivo. Assim, a experiência da consciência relativizando-se ela mesma não é mais que uma consciência de consciência, sem horizonte, perfeitamente subjetiva ; é uma experiência que apenas se conhece a si mesma sob o modo da auto-revelação, um modo diferente daquele do conhecimento. O modo dessa revelação da consciência a si mesma é o da afetividade do qual só podemos testemunhar, se nós mesmos o vivenciamos. E a afetividade é em si, absoluta.

Como controlar o absoluto se este não pode ser separado do sujeito do qual é o “ser” ou a intimidade ? Será que é possível, e o que significaria separar a alma vegetativa da árvore, a alma animal do animal ? Para entrar numa problemática do absoluto que seja objetiva e racional, devemos também desenvolver o processo experimental adequado ; quer dizer o aparelho ou o dispositivo que permita que o teste do absoluto seja vivido pelo sujeito de modo relativo, para que ele possa o apreender de maneira objetiva !

É possível ? Sim, por intermédio de uma relação de reciprocidade. Na reciprocidade, de fato, não podemos agir sem sofrer a ação da qual somos o agente ; se cada um é, então, o seio de uma resultante contraditória entre a consciência do agir e a do sofrer, essa resultante é também necessariamente a mesma para um como para o outro, sendo o resultado da sua interação. Mas essa resultante é em si mesmo : i) contraditória, sem horizonte ou finalidade que não seja anulada pelo seu oposto e ii) só pode se resolver no absoluto da experiência própria, da prova com si mesmo. Ela não deixa de ser caracterizada pelo absoluto constitutivo de qualquer experiência afetiva para um como para o outro ; mas é ao mesmo tempo de si mesmo e do outro para cada parceiro de reciprocidade, quer dizer, subjetiva e objetiva. Finalmente chegamos à conclusão : a reciprocidade é a experiência inter-individual, ou melhor, trans-individual onde e na qual se criam os valores humanos que são imperativos éticos para cada um e que são os mesmos para todos (universais).

Agora, se ainda não podemos controlar sempre o absoluto que caracteriza toda afetividade, podemos agir sobre as condições de sua gênese, e, portanto produzir os valores da consciência afetiva se reconhecemos as matrizes desses valores.

O que ha de novo ?

Se os valores éticos se impõem sempre por eles mesmos, podemos dominar a sua produção. Podemos sempre invocar esta multidão de experiências de reciprocidade que são nosso pão diário. Como dizia Emmanuel Lévinas “antes de cogitar, bom-dia !” Mas estes valores que nascem a cada momento das nossas práticas requerem tantos nomes ou definições que de situações onde aparecem : numa tradução animista poderia-se dizer que “os espíritos estão por toda a parte”. Se se dá a precedência à reciprocidade coletiva centralizada (a redistribuição) instaura-se uma representação única de todos esses valores, à qual se pode dar um nome específico : Zeus, por exemplo, Deus, YHWE, Tata Inti, Allah, Nguenechen, Imana, Nanderuvusu, etc… e o animismo torna-se monoteísmo. Qualquer que seja a potencia desta consciência, qualquer que seja a eficiência dos valores como a fé, a caridade, a esperança, a amizade, a coragem, a compaixão, nada, contudo permite de subordinar-los à Razão. É então reconfortante para o espírito de dominar as estruturas de produção destes valores temíveis !

Acontece hoje um pouco a mesma coisa que na época da descoberta do átomo. Os químicos deram-se conta que todos os corpos do mundo, a pedra, o ar, o fogo, a água, o gelo, a carne, os nervos, o sol, as estrelas, as galáxias eram redutíveis à organização metódica de alguns elementos simples, nomeados para a ocasião de indivisíveis : os átomos. A classificação de Mendeleïev permitiu compreender a matéria viva a partir da combinação de um pequeno número de átomos. É então a mesma coisa hoje num outro campo : sabemos produzir todos os valores a partir lá combinação de um alfabeto de cinco matrizes principais : as estruturas de reciprocidade de base, de três formas destas estruturas de reciprocidade, e três níveis da sua atualização. A vantagem que estamos com direito de esperar de este ordenamento é poder transformar o campo político e o campo religioso (onde reinam ainda a força e a violência) em ciências humanas fundadas sobre bases teóricas racionais. Pode-se fundar a gênese dos valores humanos sobre o estudo das estruturas que satisfazem ao princípio de reciprocidade.

Conclusão

Os valores éticos invocados em todas as sociedades tradicionais são tanto mais vivos e enraizados que as estruturas de reciprocidade que os produzem ainda estão em vigor. Agora, devemos reconhecer que estes valores são perenes graças a continuidade de estruturas sociais muito antigas, razão pela qual eles são acompanhados por imaginários, hoje desqualificados pela ciência.

Portanto, conhecer as suas matrizes de maneira racional permitiria a essas sociedades superar o limiar da sujeição afetiva, da violência do simbólico e o limite da sujeição aos seus imaginários. Isto é, a não ser mais forçada a obediência cega aos mandamentos da Tradição, sem ter, pelo tanto que passar sob o jugo da ideologia ocidental. A Razão é o único recurso, mas uma Razão mais competente que a única Razão utilitarista limitada pela lógica da identidade da Física macroscópica que se torna uma séria desvantagem para a construção do futuro pós-capitalista da humanidade.

Referencias

- CHABAL, M. 2005. “Les structures élémentaires de réciprocité”, conférence in Afrique-Cauris
- CHABAL, M. 2006. “Les formes de réciprocité positive, négative, symétrique”, Conférence in Afrique-Cauris
- HEISENBERG, W. 1971. Physique et philosophie, Paris : Albin Michel.
- LUPASCO, S. 1947. Logique et contradiction, Paris : P.U.F.
- LUPASCO, S. [1951] (1987) Le principe d’antagonisme et la logique de l’énergie, Paris : Hermann, 1951 (rééd. Monaco : Le Rocher, 1987).
- LUPASCO, S. 1960. Les trois matières, Paris : Julliard.
- LUPASCO, S. 1962. L’énergie et la matière vivante, Paris : Julliard.
- LUPASCO, S , 1974. L’énergie et la matière psychique, Paris : Julliard.
- TEMPLE, D. 2007. “La réciprocité et l’imaginaire” (1999).
- TEMPLE, D. 2006. “Les trois formes de la réciprocité” (1995).
- TEMPLE, D. 2004. Séminaire sur la Réciprocité.
- TEMPLE, D. 2003. “Les deux paroles”.
- TEMPLE, D. 2003. Teoría de la reciprocidad, La Paz : PADEP-GTZ - Tomo I : la reciprocidad y el nacimiento de los valores humanos, 212 p. ; Tomo II : La economía de reciprocidad, 506 p. ; Tomo III : El frente de civilización, 458 p.
- TEMPLE, D. 1998. “Les structures élémentaires de la réciprocité”, in Revue du MAUSS, n°12, (2) : 234-242.
- TEMPLE, D. 1997. “L’économie humaine” in La revue du MAUSS, n°10, (1) : 103-109.
- TEMPLE, D. & CHABAL, M. 1995. La réciprocité et la naissance des valeurs humaines, Paris : L’Harmattan, 263 p.


Anexo : A teoria da reciprocidade renovada

Quatro elementos teóricos

O primeiro elemento próprio à teoria da reciprocidade envolve a definição do conceito do ponto de vista socio-antropológico. O princípio de reciprocidade não se limita a uma relação de dádiva/contra-dádiva entre pares ou grupos sociais simétricos. O reducionismo dessa definição, que por muito tempo prevaleceu na antropologia, conduz a uma confusão entre troca simétrica e reciprocidade. Esse impasse persistirá, enquanto a reciprocidade for interpretada com a lógica binária que convém à troca. A troca pode se reduzir, no limite, a uma permuta de objetos. Temple e Chabal (1995) propõem recorrer à lógica ternária de Lupasco (1951), que faz aparecer um Terceiro incluído na relação de reciprocidade. Permite, assim, interpretá-lo como o ser dessa relação e dar conta dela como da estrutura originária da intersubjetividade, irredutível à troca de bens, que libera do laço social ou da dívida. Do ponto de vista econômico, a reciprocidade constitui, portanto, não somente uma categoria econômica diferente da troca mercantil, mas um princípio econômico oposto ao da troca ou mesmo antagonista da troca.

O segundo elemento da teoria é que a reciprocidade pode assumir várias formas. A antropologia consagrou apenas a reciprocidade das dádivas : oferendas, partilhas, prestações totais, potlatch que constituem o que Temple e Chabal (1995) designam pela forma positiva da reciprocidade. Mas existe, também, uma forma de reciprocidade negativa : a dos ciclos de vingança. Diferentemente da troca, cujo desenvolvimento é associado à lógica da concorrência e do acúmulo pelo lucro, a lógica da vingança está ligada a uma dialética da honra como a da dádiva está ligada a uma dialética do prestígio. Contudo, a sede de prestígio (fonte de autoridade e, portanto, de poder, nas sociedades de reciprocidade) motiva o crescimento da dádiva “mais eu dou, mais eu sou”. Entre as expressões extremas das formas negativas e positivas da reciprocidade, as sociedades estabeleceram, então, diversas formas intermediárias. Trata-se, em particular, de controlar o crescimento da dádiva : a ostentação, o potlatch, a dádiva agonística que podem destruir e submeter o outro mediante o prestígio.

Em terceiro lugar, as relações de reciprocidade podem ser analisadas em termos de estruturas, no sentido antropológico do termo. Assim, se distinguem segundo algumas estruturas elementares, tais como propostas inicialmente por Mauss (1931), Lévi-Strauss (1949), Scubla (1985) e Temple (1998). As relações de reciprocidade estruturadas sob uma forma simétrica são aquelas que geram valores afetivos e éticos, como o havia identificado Aristóteles (1994). A relação de reciprocidade em uma estrutura bilateral simétrica gera um sentimento de amizade ; a estrutura de divisão simétrica dos bens dentro de um grupo gera a justiça. Assim, outros tipos de relação, em outras estruturas, podem produzir outros valores específicos.

O quarto elemento da teoria remete aos diferentes níveis do princípio de reciprocidade e aos modos que lhe são específicos. Existem três planos ou níveis de reciprocidade : o real, o simbólico (a linguagem) e o imaginário (as representações) (Temple, 2010). Assim, existem várias estruturas fundamentais de reciprocidade que geram sentimentos diferentes e, portanto, valores diferentes. Existem várias formas de reciprocidade, que lhe conferem imaginários diferentes. O sentimento do ser originário pode ser capturado no imaginário do prestígio ou no da vingança, dando lugar a formas de reciprocidade positivas, negativas e simétricas. Estruturas, níveis e formas se articulam para formar sistemas de reciprocidade.

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Pour citer ce texte :

Dominique TEMPLE, "Porque precisamos de outra lógica", Brasil, 2011 | Tradução Éric SABOURIN, http://dominique.temple.free.fr/reciprocite.php, (consulté le 18 novembre 2017).

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Notes

[1] Cf. “Le problème de la connaissance en physique et les cultures humaines” (de W. Heisenberg) et “l’Allocution faite au congrès international d’anthropologie et d’ethnographie”, Copenhague, août 1938, in Niels Bohr, Physique atomique et connaissance humaine, Paris : Gauthier-Villars, 1972.